Apresentação do projeto “A Book of Books”

Apresentação do projeto “A Book of Books” (2011) por parte do seu autor, Filipe Garcia.
“A Book of books” “Uma experiência primária sobre o paradoxo performativo na (re)construção de outras narrativas poéticas, perto da fronteira do plágio formal.”
“A escrita é um lugar neutro, onde vai parar o nosso sujeito, o branco e o negro onde se acaba por perder toda a identidade, começando pela própria identidade do corpo que escreve.”
Na linguagem, a palavra, coisa que se compõe de duas partes e se apresenta para se voltar a dividir. Aqui o texto é trabalhado de uma maneira apalavrada numa conquista rápida e preferencialmente intuitiva, sobre o virar da página.

Não pretende ser mais do que um rescrever do que lá está, mas não se encontra perceptível, trabalho intuitivo que se apresenta sobre as possibilidades dele próprio, num infinito de variáveis de acção.

Sobre o conteúdo, uma espécie de Dadaísmo denotativo, poesia livre, espaço de encontros e desencontros no deambular processual da procura dele próprio.

Na metodologia três paradigmas: o primeiro pressupõe a rapidez da escrita automática, onde o pensamento tem que corresponder ao desígnio instantâneo da narrativa crescente; no segundo a tangente ao plágio, problematicamente entendido: só são retirados no máximo três elementos de cada página, e nesse sentido o que se define não passa de um plano de acção muito perto da tridimensionalidade mas ainda aquém do corpo que corrompe o autor; no terceiro o critério impreterível de tirar elementos (palavras) de todas as páginas desde a capa à contra capa.

O fim é incerto mas abrangente, provavelmente acabara em poesia “Haiku” onde a analogia e a própria metáfora já não estão mais inscritas, criando assim lugar a mais uma outra percepção do trabalho possível sobre a linguagem e a sua (re)construção.

A Book of Books_Neste projecto e através da linguagem pretendo levantar questões sobre as possibilidades infinitas de produção de texto poético com base em poesia escrita, mantendo o limiar do plágio como fronteira. A ideia é a de no processo performativo encontrar intuitivamente através da escrita novos caminhos poéticos em algo (livro) que nos parece encerrado a nível formal, mas que a nível da ideia se encontra sempre aberto, susceptível de ser reformulado construído ou reescrito sem que esse processo possa ser considerado abusivo perante o autor, muito embora possa ser ao mesmo tempo um trabalho de limite sobre a obra sobre a qual trabalha.

Porque a ideia de plágio ?

A ideia de plágio aparece pela simples razão de que temos necessidade de proteger a propriedade intelectual, e qual é essa propriedade intelectual senão a construção de um ponto de vista diferente das mesmas sensibilidades do mundo que percepcionamos. Não entendo a ideia como algo encerrado em nós próprios, mas como algo que dependendo da nossa capacidade perceptiva possamos captar do consciente colectivo que somos todos, e nesse sentido parece-me não haver prevaricamento intelectual algum em relação aos outros, pois esses outros somos nós também. Tudo mais uma vez se encerra na questão que intitulamos de forma, ou da ideia que temos dela, ou melhor ainda da percepção que temos do mundo formal.
Claro está que a um nível mais subtil não existe forma alguma senão um emaranhado de possibilidades a definir pela observação da consciência a que chamamos “eu”.

São os sentido base e muito especialmente a visão que nos dão muito claramente a definição de erro, entre o aparente e a realidade, entre o visível e o invisível, entre o público e o privado, que nós construímos do todo. A ideia de plágio está presente em todos os parâmetros da sociedade, no sentido de ser através das suas leis operantes, que se constrói esse ponto de semelhança entre todos aquando do seu interesse em controlar. Por outro lado a nível intelectual a realidade muda completamente de figura, fechando o circuito a volta do autor, como se de um casulo hermeticamente fechado se trata-se, essa a ideia de separado.

Criar analogias entre a realidade do discurso poético coerente e o discurso desconstruído do “A book of books” como uma aproximação a uma meta linguagem própria dela mesmo, onde o significado é um encontro estético/ético do observador com ele próprio. “O discurso nada mais é do que a reverberação de uma verdade em vias de nascer diante dos seus próprios olhos; e, quando tudo pode, por fim, tomar a forma do discurso, quando tudo pode ser dito e o discurso pode dizer-se a propósito de tudo, é porque todas as coisas, tendo manifestado e trocado o seu sentido, podem regressar à interioridade silenciosa da consciência de si.”2
Aqui na poesia, é o lugar predilecto para a logofilia3 onde existe espaço para a libertação do discurso de seus constrangimentos formais.

“Book of Books” Eugénio
de Andrade- Limiar dos
Pássaros por Filipe Garcia

Andrade beleza de dizer
limiar obra dos pássaros
desses olhos frágil escuta
onde o silêncio árvore
rompe a pedra sem nome
dos lábios dessa areia
liberdade.
O ardor real sílaba de
paixão meu amigo homem
vê-se sobre a boca riso das
candeias mãos estendidas
desta janela tímida de
águas para atravessar.

O caminho na noite música
desapareceu devagar
curioso crepúsculo de ser
verdade na minha
memória.
Do teu litoral contemplo
rente a memória de sol
outra vez sobre as falésias
dos muros nascentes que
se despem a prumo doce
dos vestígios do olhar
fresca névoa no lugar
vento noticia presente
nesta mão escrita poética
matéria de tanto desenho
transporta uma
eternidade real.

Andrade, Eugénio, (1994)
Limiar dos Pássaros,
Editora Fundação Eugénio
de Andrade.

1 R. Barthes, (1987), “La muerte del autor”, p. 65.

2 Foucault “A ordem o discurso” p. 37
3 O amor pelas palavras e pelos jogos de palavras.

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